Evitem o rastilho de pólvora
Dirceu Cardoso Gonçalves*
A “recepção” experimentada pelo ex-presidente Lula, nos últimos dias, no interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, é o demonstrativo da gravidade do momento.
O ex-governante, hoje condenado pela justiça embora não o aceite, percorre o pais como um cavaleiro ou membro de coluna mas, em vez de pregar renovação ou até a revolução, tenta defender o próprio couro e seu esquema político declinante.
Sua reação, se comparada à carreira que construiu, baseada no proselitismo e no denuncismo aos confrontantes, já era previsível.
O que não se compreende, no entanto, é que lhe seja permitido promover a mobilização de massa sem um motivo claro (uma campanha eleitoral, por exemplo) e lhe seja dada condição para achincalhar a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça, que o investigaram e o levaram à condenação.
Alguém precisa ter o bom senso de contê-lo e, com isso evitar que coloque fogo no país.
Lula deve ter garantidas todas as condições de se defender, mas no devido lugar. Deve ser impedido de fazê-lo através de comícios extemporâneos cuja experiência obtida no Sul durante os últimos dias demonstra perigo. Principalmente porque o próprio condenado, em vez de apaziguar os ânimos, prega o confronto de seus seguidores com aqueles que o contestam.
Essa é a hora em que o país necessita da autoridade que até o momento se mostra omissa. Não há razão para alguém percorrer o país “em caravana” para fazer proselitismo político-eleitoral e dizer-se candidato sem ter a certeza de que reunirá condições para obter o registro perante a Justiça Eleitoral, a instância encarregada de promover e administrar as eleições.
Por mais delicado que seja o momento político, alguém tem a obrigação de evitar que se espalhe o rastilho de pólvora. Independente de posicionamento político ou ideológico, ninguém tem o direito de realizar campanha eleitoral fora de época e nem de mobilizar o povo e atiçá-lo contra as instituições.
Se algo não for feito urgentemente para evitar a provocação e as escaramuças, as desavenças se ampliarão e logo teremos feridos, o cadáver que muitos esperam, e o caos estará definitivamente instalado. Aí, não restará outro caminho senão a intervenção militar, hoje pregada por grupos minoritários mas possível se chegarmos a um ponto em que as forças institucionais não sejam capazes de garantir o poder e a ordem.
Em 1964, num panorama diferente do que hoje vivemos, o Congresso afastou o presidente João Goulart, que no clima de inviabilidade deixou o país, e dias depois elegeu indiretamente o general Castello Branco, dando inicio ao ciclo de governos militares.
Os militares assumiram atendendo ao apelo da população, que marchou para a frente dos quartéis pedindo a intervenção. No sábado, dia 31, vai fazer 54 anos que isso aconteceu.
Será um desperdício e a negativa da nossa capacidade de viver a democracia se o povo, sem outra alternativa, tiver de voltar a pedir a quebra institucional. Acautelem-se enquanto é tempo…
*Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)